Desfalecida, porém de véu e grinalda.
Foram quatro longos anos de espera, e quando acordou, se é que dormiu, mal acreditava que tão esperado dia havia chegado. Em seus 27 anos de vida, nunca vira uma noite tão demorada.
Eram 6:30, e Maria das Dores, com sua ansiedade peculiar, acordara a casa inteira e mais a vizinhança, no intuito de que os irmãos, pai, mãe, tia, vizinhos e quem mais quisesse colaborar a transformassem em uma princesa. Trabalho que iria requerer todo tipo de ajuda e longas horas. Desligou seu celular e pediu para que todos fizessem o mesmo, para que ninguém se distraísse.
O relógio da sala marcava 7:45 e das Dores, como era mais conhecida, não havia terminado o banho.
- Anda logo, minha filha, disse a mãe zelosa, daqui a pouco você tomar um banho à dois...
- Hum, ela deve estar achando que banheiro é sauna de emagrecimento! Cochichou dona Cinésia com dona Ametiza, uma outra vizinha. Detalhe que se não fosse para fazerem fofoca não existiria razão para estarem presentes.
Acabado o banho, começou a correria. Parecia uma operação delicada, uma cirurgia de alto risco.
- Secador de cabelo! Pedia alguém
- Escova, escova! Gritava outro.
- Escova não, um pente!
- Cadê o esmalte vermelho, heim?
- Vermelho não, burra. Noiva virgem de esmalte vermelho?
Durante os quatro últimos anos, das Dores economizara todo e qualquer centavo em prol do enxoval, vestido de noiva, convite com caligrafia em alto relevo, recepção, hospedagem para a noite de núpcias, etc. As vizinhas, já senhoras e solteironas, claro, acharam um absurdo a quantia gasta. Bem, não sabemos se foi sem querer, ou por inveja, ciúme, ou seja lá o quê, mas D. Cinésia desfiara o véu da noiva. Dona Ametiza se encarregara das meias. Nova correria.
- Agulha!
- Ô, meu Deus, a linha estava aqui!
- Vai rasgar, vai rasgar!
- Assim não!
- Iiiiih!!!
- Só na máquina de costura!
O suficiente para a noiva entrar em prantos e derreter a maquiagem. E não bastavam manicures, pedicures, cabeleireiras, maquiadoras, costureiras, agora, psicólogas. Mal deram conta que já estava anoitecendo e o relógio à vista de todos ainda marcava 17:13.
- Calma, filhinha. Ainda tem tempo de sobra! Até a hora do casamento faltam mais de 2 horas.
Com bastante tranqüilidade, terminaram o trabalho e, justiça seja feita, fizeram uma transformação. Nunca fora bonita, embora também não fosse feia, mas naquela noite estava linda.
- O noivo vai achar que está casando com outra! Comentou Cinésia.
- Gente!!! O relógio está parado!!!!
Outra correria. A noiva entrara em choque ao saber que já eram 21:00.
Dona Nadir, sempre zelosa, correu para o telefone:
- Ai, meu Deus, não sei o telefone da igreja, ai... e nessa correria não paguei a conta, o telefone tá cortado...
Providencialmente, surgiram um catálogo telefônico e um celular.
- Rua Ortência, Rua Ortência... Não tem essa rua não...
- É Hortência, ô burra, com agá.
- Eme, jota, agá. Aqui, achei. 383-3838.
- Padre, minha filha está atrasada, é só mais quinze minut...
- ...
- Não, já podem começar a musiquinha: Tam tam ram tam t....
- ...
- Quê?! Foram embora?
Das dores permanecia estática, imóvel, estirada no sofá. Os olhos não mexiam. Antes de desfalecer, ouviu Dona Cinésia dizer:
- Falei prá fazer uma coisinha mais simples, né? Casamento agora é uma patuscada... dá nisso... perdeu o noivo. Mas será que a gente pode buscar os salgadinhos da festa?

Nenhum comentário:
Postar um comentário