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roteirista e diretor de cena

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A tempestade

A tempestade



Aos 22 anos já tinha ido a lugares que agentes de turismo, caminhoneiros e até o google maps desconheciam. Muitas vezes depois de longas caminhadas e providenciais caronas. Ou vice versa, longas caronas e caminhadas providenciais. Outras tantas pela simpatia mesmo. Muitos que  pediam uma indicação de onde passar as férias, feriado ou uma noite de rei acabavam por levar  um cicerone na bagagem. Vale dizer que uma noite de rei não era, necessariamente, uma noite de sofisticação e conforto. Embora tenham havido várias.
Nunca lhe faltou prazer.  Dormiu entre coxas em camas com lençóis de seda e foi feliz amando embaixo de chita.

Quando tinha 5 anos,  durante o velório do avô, teve um primeiro contato com o fim das coisas. Talvez por ser muito novo, nunca acreditou que as coisas tivessem fim.
Uma estrada começa em algum lugar e termina em outro ponto distante, certo? Mentira.
Andar em linha reta nunca foi interessante. Sempre preferiu as curvas e desvios. Jamais atalhos. Pra quem viveu assim, a beleza do caminho é mais atraente do que o destino.

A percepção de que estava ficando velho foi na sala de espera do consultório médico. Todas as pessoas ali tinham caras de doentes ou apresentavam sinais visíveis de sofrimento.
Sentiu muito medo de que as outras pessoas também o vissem assim. Enquanto tirava da mochila a carteirinha do plano de saúde, deixou cair uma fotografia do aniversário de 2 anos do seu filho.

Um relâmpago assustou o homem de 38 anos, e apagou as luzes da clínica. Sentiu alívio, era uma oportunidade para escapar da sentença que lhe assombrava. Descendo as escadas, ouviu um trovão anunciar a tempestade próxima. O céu estava escuro.
Caminhou no sentido contrário que viera, fazendo o caminho de volta. Talvez lá tivesse céu azul.

Queria se  distanciar do ponto em que se encontrava. Viu um casal que dividia um guarda chuva, e descobriu que o nome dele era Vanderlei, ao ouvir a companheira lhe oferecer um pão de queijo.
Com medo da chuva ficar mais forte, apertou o passo.
Sozinho pela rua, entendeu que as pessoas não caminhavam enfrentando a chuva.
Apenas procuravam um lugar seguro.

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