Conhecia muitos lugares, mas não o Jequitinhonha. E isto lhe intrigava. Por diversão do acaso, nunca concluiu essa viagem diversas vezes programada.
Acordar com febre alta naquela sexta feira foi só mais uma brincadeira de mau gosto.
Como não iria, seu irmão levou emprestada a câmera fotográfica e alguns filmes ASA 80, porque o sol lá bate forte.
Quando a vida era analógica, havia uma espera sem angústia. Tudo era um download sem barra de status. O tempo simplesmente passava. E quando a gente se assustava, o feijão já estava cozido, a água fervida e, entre uma prosa e um gole de café ou cachaça, era hora de colocar mais lenha no fogão.
Aquele instante eternizado na fotografia durante um tempo permanecia em segredo. Só o fotógrafo sabia o que seria revelado. E se o filme não velasse e se a exposição estivesse correta, depois de alguns dias as outras pessoas poderiam ver o que só ele viu. Diferente dos dias atuais, em que assim que se aperta o disparador acontece uma disparada para trás do visor das câmeras digitais. Achou engraçado fotografia digital... para ele, fotografia sempre foi visual.
Mexendo na velha caixa de papelão, entre negativos e fotos, se lembrou desta viagem frustrada. Se fosse ele o fotógrafo saberia o local exato... mas só poderia ser no Jequitinhonha. Onde nunca esteve. E com certeza era na fazenda dos Fonseca. Reza a lenda que tudo que há de mais belo nascia ali, na fazenda dos Fonseca. O braço de rio, o pé de pequi. As moças.
Ah, como gosta de brincar esse tal de destino... Há alguns dias recebeu por engano uma correspondência para uma vizinha, Débora Fonseca. Ficou admirado com sua beleza quando foi lhe entregar a carta. Não se enganaria... aquelas curvas da fotografia em contra luz eram dela. Da filha do Fonseca.
Como a natureza era pródiga na fazenda dos Fonseca...

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