A mulher do garanhão
Ninguém entendia porque se chamava Aparecida. Pelo contrário, se fosse para ser coerente com suas características físicas e psicológicas deveria se chamar Discreta. Mas a vida é cheia de contradições e quis o destino que assim fosse: Aparecida. Casada, e muito bem casada, gostavam de acrescentar as amigas com pitadas de inveja. Recusava todo e qualquer gesto de delicadeza vindo de algum homem que não fosse o seu Vítor. Alguém que estivesse comodamente assentado dentro do ônibus segurar os embrulhos de presentes? Nem pensar. Mesmo que as mãos estivessem ocupadas carregando o peru do natal, as nozes, castanhas, panetones, vinhos e a sombrinha, indispensável nestas épocas de fim de ano.
Foi justamente para ter mais equilíbrio que quando criança frequentou por três anos a escola de circo. E mesmo assim não perdeu a timidez. Ficava toda vermelha se algum engraçadinho na feira dissesse que era a laranja que faltava em sua barraca. Atravessava a rua para não passar embaixo de alguma obra. Ouvir que era o tijolo que faltava na construção lhe deixava furiosa.
Vítor era um esposo adorável, gentil, tipo em extinção. Tudo bem que há um bom tempo não tinham relações sexuais, mas o que se podia fazer se o negócio dele havia caído? Quer dizer, as vendas em seu comércio não íam bem. Ainda assim era um bom marido, carinhoso com os filhos, honesto, trabalhador e, assim como ela, incapaz de cometer alguma infidelidade.
Mas naquela noite estava disposta a fazer sexo com Vítor, como há muito tempo não faziam. Encarregou-se de colocar as crianças para dormirem mais cedo, tomou um banho de creme, poucas gotas de perfume, vestiu sua lingerie preta, a mesma usada durante a lua de mel, um babydoll e o melhor vinho na geladeira. Estava tudo pronto para a chegada de Vítor. Ao ouvir o barulho do carro entrando na garagem já estava excitadíssima. Bastou um beijo tipo marido e mulher para que se agarrassem e rolassem pela sala. O abajour que caíra quase acordou os meninos.
Aparecida então fechou os olhos e pensou no Antônio Banderas.
Há muito tempo não gritava tanto.
Vítor dormiu. E acordou confiante de que seu negócio voltaria a crescer. E que sua performance manteria Aparecida longe de qualquer traição.

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