Domingo de missa.
Católico que era, Pedro não perdia a missa um domingo sequer. E sempre batia no peito três vezes ao dizer que era obrigação do católico apostólico romano.
Mas aquele domingo era um dia especial. Era final de campeonato, Cruzeiro X Atlético, e por razões que só a vida conhece não pôde ir à missa no sábado, nem domingo pela manhã. Mas, se Deus é brasileiro, haveria de entender, pois, com certeza, conhecia os fascínios do futebol. E do carnaval também. Acabou não indo. Ao Mineirão, é claro. O medo de arder no inferno e o receio de que seu time, jogando desfalcado de quatro titulares, lhe pregasse uma peça falaram mais alto. Foi à missa. No entanto, vestido com o manto sagrado: a camisa 9 do Cruzeiro. Por via das dúvidas levou seu radinho de pilha, para se caso não houvesse missa.
Durante o canto de entrada ouviu um foguetório. Era certo que havia acontecido um gol. Conteve-se. Pouco tempo depois escutou alguém do banco de trás comentar com outro: saí de casa estava um a zero para o galo.
Era provocação do inimigo, só podia ser. Mas achou por bem incluir em suas intenções para a missa o jogo daquela tarde. Deus haveria de entender.
Procurou concentrar-se na celebração. O Padre já lia a palavra de Deus quando novo foguetório foi ouvido. Não se conteve. Para disfarçar, simulou um ataque de tosse e ligou o rádio bem baixinho. Cruzeiro havia empatado. Menos mal. Deus entenderia. Concentrou-se e se entregou à profunda oração, imaginando os fiéis no Mineirão, os cânticos da torcida e a partilha de cerveja e cigarro.
Pelas horas, já se aproximava o fim da partida, e da missa. O empate era do inimigo, mas pensou: “a missa é de Deus”. Porém, foi justamente no momento sublime da consagração que a cidade explodiu em uma alegria infinita. Pensou na vitória do adversário, hesitou em ligar o rádio, mas a paixão de Cristo... Quer dizer... A paixão de Pedro foi mais forte. Ligou o rádio. Gol do Cruzeiro, faltando apenas um minuto para o término do embate. O Padre ergueu o cálice como se erguesse uma taça, não deu para segurar. Saiu dando cambalhotas e gritando “é campeão, é campeão”, sob o olhar incrédulo de sua esposa. As outras beatas continuaram o côro de “é campeão”, para o deleite do Padre que então gritava “viva Jesus, viva Jesus”.
Deus entendeu, com certeza.

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