Decidiu que usaria a velha Olivetti pela última vez. Já passava das 22 horas e o papel continuava em branco. Entre a necessidade de escrever o que sentia e aquela sinfonia datilográfica existia uma distância imensa. Abrupta.
Percebeu que se tornara um número, e não uma palavra. Havia um silêncio cartesiano naquela sala geométrica.
Foi quando se deu conta que acordara na terça feira e já era quarta.
Acordado entendeu que ontem, hoje e amanhã eram o mesmo tempo verbal.
Suas mãos tremeram.
Se lhe atormentava a ausência visível, o que lhe movia era a presença apenas sentida. Permaneceu estático diante da velha Olivetti. Fisicamente. Porque havia se transformado em um verbo complexo, que se amava no passado, crescia no futuro e se conjugava no presente.
Há quem diga que até hoje se encontra ali sentado.
Ele jura que voa por aí. Como uma palavra.

Muito bom...
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