Dulce, The Leidy
Era dona de um bar. Durante muitos anos pensou que seria bailarina. E foi através da dança que caiu na noite. No início era a namorada do guitarrista dee uma banda eclética. Eclética no sentido amplo da palavra. Tocavam de Fábio Júnior a Nelson Ned, passando por Rei Conifs. Era como pronunciavam.
Um dia, um freguês da churrascaria em que apresentavam sugeriu que incluíssem no repertório uma música do Ray Charles. Riram do bêbado. Afinal, Charles ainda era príncipe, talvez algum dia fosse rei. Descobriram que não faziam sucesso por causa da ignorância do público e falta de sensibilidade artística dos freqüentadores do Boi Gordo, a churrascaria onde demonstravam a fina arte musical. Nesse mesmo dia, ou noite, decidiram contratar duas bailarinas para dividirem o palco com os artistas. Diante da impossibilidade de pagarem cachê, resolveram apostar apenas em Dulceley. Seria o suficiente para angariarem a atenção para os solos e arranjos que emprestavam a músicas de sucesso, que ficavam melhores ainda, segundo eles, com o virtuosismo e talento daquela banda. E foi assim que Dulceley, virou Dulce, The Leidy. Um nome estrangeiro sempre causa algum impacto.
Quando resolveu seguir carreira solo, Dulce, The Leidy viveu a glória. Foram apresentações de grande sucesso em bares e boates como o Fervessão, New Texas e Olímpio dos Deuzes.
Até que, iludida por um estelionatário que dizia ser dono de uma frota de táxi, abandonou a carreira artística. Quase foi presa. Por sorte foi reconhecida por um antigo fã, que junto com seus colegas policiais invadiram a casa do casal.
Desde então era a sócia proprietária do Eskinão 3. Não que houvesse outras filiais, mas acreditava que o número 3 após o nome do bar empregava certa importância ao seu estabelecimento. Além de coincidir com a sugestão de uma amiga que havia feito um curso de numerologia pela internet..
Assim, passava os dias atrás daquele balcão, lembrando seus dias de estrela e reclamando da falta de sorte na vida. Mas um dia o bar não abriu. A porta de aço cerrada abria espaços para a imaginação dos freqüentadores e pessoas que admiravam aquela figura. Alguns juravam ter visto Dulceley fugir com um fazendeiro. Outros acreditavam que ela fora abduzida. Na verdade, depois de um porre de vodka, sua bebida preferida, saiu andando pelo mundo. Sem rumo. Ou não. Sempre teve a certeza que tudo aquilo era pequeno demais para ela. E resolveu cumprir a sua sina de ser estrela. Foi brilhar em outros palcos. E nunca mais se ouviu falar em Dulce, The Leidy.

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